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O luto do suicídio descreve o período de ajustamento à uma morte por suicídio que é experimentado por membros da família, amigos, colegas de trabalho e pessoas vinculadas a quem morreu. Nos Estados Unidos, os indivíduos afetados são descritos como "sobreviventes de suicídio" ou "sobreviventes da perda por suicídio". Sobreviventes são todas as pessoas afetadas por um suicídio: pais, filhos, irmãos, familiares, amigos, colegas etc. Além disso, pessoas que perderam alguém significativo por suicídio e aquelas que tiveram a vida afetada ou mudada por causa dessa morte são consideradas sobreviventes.

Cerca de 7% da população é exposta ao luto por suicídio a cada ano. Dados de pesquisas estimam que 60 pessoas sejam intimamente afetadas em cada morte por suicídio, incluindo família, amigos e colegas de classe. Como a OMS estima que 800 mil pessoas morram por suicídio a cada ano, cerca de 48 milhões e 500 milhões de pessoas podem ser expostas ao luto do suicídio em um ano.

A posvenção inclui as habilidades e estratégias para cuidar de si mesmo ou ajudar outra pessoa a se curar após a experiência de pensamentos suicidas, tentativas ou morte. Deste modo, o próprio paciente e a família devem ser acompanhados para evitar novas tentativas, bem como ajudar no processo do luto em caso de suicídio ocorrido.

O seguimento mais próximo desses "sobreviventes do suicídio" com um processo adequado de luto pode, no entanto, ser benéfico. Estratégias com foco no suporte aos familiares parecem ser as mais promissoras, tanto por meio de recrutamento ativo dos familiares "sobreviventes do suicídio", como abordagens de grupo de apoio ao luto, conduzidas por facilitadores treinados. Tais ações mostraram aumento do uso de serviços projetados para ajudar no processo de luto e redução em curto prazo do sofrimento psíquico associado ao luto.



Os objetivos da posvenção são:

  • Trazer alívio dos efeitos relacionados com o sofrimento e a perda.

  • Prevenir o aparecimento de reações adversas e complicações do luto.

  • Minimizar o risco de comportamento suicida nos enlutados por suicídio.

  • Promover resistência e enfrentamento em sobreviventes (Beautrais, 2004; Scavacini, 2011).

A maioria dos sobreviventes não conta com nenhuma ajuda para lidar com o luto. Por ser uma perda que envolve preconceito e estigma social, por vezes torna-se uma perda não reconhecida (Silva, 2015), podendo intensificar o véu de silêncio que se forma em torno dos enlutados. Estudos demonstram diferenças significativas na intensidade, duração do luto, aumento de sintomas depressivos e impacto no sistema familiar nos sobreviventes do suicídio, se comparado com outras mortes violentas (Dunne; Dunne-Maxim, 2009; Scavacini, 2011; Wasserman, 2001).

Culpa, vergonha, busca incessante do motivo, sentimentos intensos de responsabilidade, rejeição e abandono, maior dificuldade em dar sentido para a morte, autoacusações, isolamento, mudanças na dinâmica familiar são alguns dos sentimentos e comportamentos usualmente experienciados pelo sobrevivente (WHO, 2008; Jordan, 2001).

Muitas vezes, amigos e familiares que habitualmente dariam apoio ao luto motivado por outros tipos de perdas, afastam-se e não sabem o que fazer, contribuindo ainda mais para a sensação de isolamento e abandono vivenciados pelos sobreviventes (Scavacini, 2011; Silva, 2015). Infelizmente ainda é frequente que as famílias sobreviventes sejam rotuladas como desajustadas, desequilibradas, desestruturas, sem capacidade de amar e cuidas (Silva, 2015), sendo julgadas socialmente.

Os sobreviventes, incluindo crianças e adolescentes, podem experienciar um luto traumático e complicado. A posvenção oferece serviços de acesso aos cuidados especializados para o manejo do processo de luto, minimizando, dentre outras coisas, o risco de suicídios dentro desse grupo vulnerável (Scavacini, 2011). Pode ser por meio de grupos de apoio ao luto ou psicoterapia.

É importante cuidar dos fatores de proteção ao luto: a religiosidade, o apoio profissional, o apoio social, a arte, a construção de significados, o compartilhar, entre outros recursos de enfrentamento, podem contribuir positivamente. Cabe ressaltar que não há uma receita única para o enfrentamento do luto. Cada enlutado precisa encontrar o seu próprio caminho em seu próprio tempo (Silva, 2009).

Alguns exemplos do que os enlutados por suicídio possam precisar:

  • Auxílio e aconselhamento em assuntos práticos, inclusive sobre aspectos jurídicos.

  • Informações – com a consciência de que os indivíduos podem estar desorganizados, logo após a morte, e podem precisar que as informações sejam oferecidas novamente em um momento posterior, ou de uma fonte diferente.

  • Suporte – assistência particular ou terapia com profissionais de saúde mental.

  • Oportunidade de conversar com outras pessoas que estão enlutadas por suicídio.



Caso você esteja preocupado e queira ajudar alguém ou alguma família que está passando pelo luto por suicídio, saiba que sua ajuda é de grande valia. Muitas vezes, o sobrevivente se sente mais isolado do que realmente está, portanto, insista com delicadeza e veja se ele recebe a sua ajuda.

Existem muitas coisas que podem ser feitas para ajudar. A primeira, e mais importante delas, é estar aberto e disponível para ajudar. A segunda é sempre checar com a pessoa e com a família qual o tipo de ajuda ela acredita que precisa no momento e se aceita a sua ajuda.

Outras formas de ajudar:

  • Estar presente, genuinamente, e aparecer. Muitas vezes, apenas a presença de alguém pode ser a ajuda que a pessoa precisa naquele momento.

  • Escutar com atenção. Ouvir as histórias, comentários, ver fotos e escutar histórias daquele que morreu. Por vezes por muito tempo.

  • Deixe a pessoa chorar e expressar seus sentimentos mais profundos e doloridos.

  • Lembrar que, talvez, não falar sobre a pessoa que morreu, geralmente, dói mais do que falar.

  • Não se preocupar em perguntar coisas sobre quem faleceu ou falar o seu nome.

  • Oferecer ajuda prática nas tarefas diárias: fazer compras, preparar a comida, pegar as crianças na escola etc.

  • É importante que você saiba que cada pessoa lida com a morte de maneira diferente, dentro de uma mesma família e que, geralmente, existem vários tipos de enfrentamento.

Fonte(s):

  • Suicídio: informando para prevenir*. Associação Brasileira de Psiquiatria, Comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio. Brasília: CFM/ABP, 2014.

  • Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio - www.vitaalere.com.br

  • Silva, Daniela Reis e. Na trilha do silêncio: múltiplos desafios do luto por suicídio. In Casellato, G. O resgate da empatia: suporte psicológico ao luto não reconhecido. São Paulo: Summus, 2015, pp.111-128.

  • Silva, Daniela Reis e. E a vida continua... O processo de luto dos pais após o suicídio de um filho?. 138 p. Tese (mestrado). São Paulo. 2009. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

*Esta cartilha se encontra disponível para download na seção Material deste site.



 

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